Numa manhã limpa de inverno em Shichirigahama, o line-up olha para um postal: Enoshima de um lado e, a flutuar sobre a baía de Sagami atrás dela, o cone nevado do monte Fuji. A uma hora de comboio, trinta e sete milhões de pessoas sobem escadas rolantes para dentro da maior cidade do mundo; aqui em baixo, surfistas de borracha com capuz dividem ondinhas pelo joelho debaixo da montanha e acham-se ricos. Isto é Shonan, a casa cultural do surf japonês: o Enoden a chocalhar atrás do line-up, longboards nos porta-bagagens das bicicletas, a passagem de nível do Slam Dunk sitiada de turistas, mais lojas de surf por quilómetro do que em qualquer outro lugar do país. As ondas são pequenas e o amor é enorme.
Chiba é a outra metade do negócio, e a metade séria. Contorna a baía de Tóquio e a península de Boso apanha o Pacífico de frente: os bancos infinitos de Kujukuri, o palco olímpico de Tsurigasaki, recife e fozes até Kamogawa. É consistente onde Shonan é paciente, e é para lá que Tóquio conduz quando a previsão fala a sério. Acerta tudo pela época dos tufões, de agosto a outubro, quando uma tempestade a mil quilómetros a sul consegue acender as duas costas durante dias; o inverno traz offshores de noroeste e manhãs limpas à altura do peito em Chiba para quem tem boa borracha; o verão é pequeno, quente e partilhado com meia cidade. Aqui o dawn patrol não é uma tática: é a religião.
Melhores meses
De agosto a outubro para a ondulação de tufão; de dezembro a fevereiro, pequeno, limpo e offshore do lado de Chiba
Água
De 26°C em setembro a 14°C em fevereiro: calções no verão, 5/4 selado com botas no inverno
Níveis
Das ondas de longboard de Taito a Inamuragasaki quando um tufão se alinha
Como chegar
De comboio desde Tóquio: menos de uma hora até Kugenuma pela linha Odakyu; para Chiba, carro ou o expresso Wakashio
Contornada a baía de Tóquio, já na península de Boso, o Pacífico finalmente toma a palavra: os sessenta quilómetros de areia de Kujukuri, de Katagai ao pico de longboard de Taito, depois a enseada mansa de Onjuku e o recife de Maruki em Kamogawa. Este é o lado consistente, aquele para onde se conduz quando a previsão fala a sério, e os bancos olímpicos de Tsurigasaki são a prova de que o mundo reparou. Uma madrugada de dia de semana aqui fora é o mais perto de vazio que o surf consegue estar ao alcance da capital.
Katagai
Chiba · Beach break entre molhes
Iniciante
Kujukuri são sessenta quilómetros de areia sem interrupção, e Katagai, mais ou menos a meio, encostado ao porto de pesca, é a entrada clássica. Os molhes do porto seguram os bancos no lugar e dão-te um canto abrigado quando o vento roda; picos quase iguais repetem-se praia acima até onde te apetecer caminhar. Apanha cada pulso de ondulação de vento do Pacífico, o que faz dele o trabalhador honesto da região: raramente perfeito, raramente flat. No inverno o offshore de noroeste penteia-o em paredes rápidas à altura do peito com quase ninguém na água. Respeita as correntes quando corre ondulação de tufão: isto é areia aberta ao oceano, não uma enseada protegida. Estaciona-se mesmo ao lado da estrada da praia, o que no Japão já conta como luxo.
Taito
Chiba · Pico manso para longboard
Iniciante
A ponta sul de Kujukuri dobra-se contra o cabo de Taito, e o promontório tira à ondulação exatamente o veneno suficiente para fazer daqui a onda mais amiga desta costa aberta: um pico lento e redondo que os longboarders do Japão reclamaram como deles. Os single fin são mais do que os thrusters em quase todas as manhãs, e o ambiente no line-up parece mais o de Shonan do que o dos bancos de areia a norte. Dez minutos para norte há outro Japão: Tsurigasaki, a praia a que todos chamam Shidashita, onde o surf olímpico se estreou e onde a elite nacional do shortboard divide picos cavados de Ichinomiya a Torami. Vai vê-los com ondulação de tufão, e depois volta para aqui deslizar. Nos dias pequenos de verão, Taito é quase ideal para aprender; quando chega o tamanho de outono aguenta uma parede a sério e os longboards dão a vez.
Onjuku
Chiba · Picos abrigados de areia branca
Iniciante
Uma meia-lua branca com estátuas de camelos ao centro, herança de uma canção infantil sobre um deserto ao luar, e a aterragem mais suave da costa exterior de Boso. A baía olha para sul e os seus promontórios aparam a ondulação: Onjuku continua surfável e bem-educada quando as praias abertas fecham de ponta a ponta, e famílias, escolas de surf e mid-lengths dividem três picos mansos. A vila manteve o seu esqueleto de porto de pesca e onsen, e o banho quente depois da segunda sessão é a ordem correta das coisas. Quando a baía te ficar pequena, Hebara espera vinte minutos a sul, perto de Katsuura: uma parede de beach break com provas profissionais que apanha a ondulação de tufão em cheio. Entre as duas montava-se uma viagem inteira sem tocar numa autoestrada.
Kamogawa, Chiba
Chiba · Direita comprida de recife em Maruki
Intermédio
A capital do surf da costa sul de Boso, e a onda de que mais se orgulha: Maruki, uma direita que desfolha sobre uma laje de recife em direção à praia com uma paciência que os bancos de areia lá de cima nunca aprenderam. Com ondulação de vento normal é uma parede para longboard; quando um tufão passa ao largo torna-se a melhor onda da região: alinhada, acima da cabeça e bem frequentada. O núcleo local vem de gerações e as lojas de surf servem de posto meteorológico: espera pela tua vez, cumprimenta com a cabeça e o line-up aquece depressa. O inverno é o milagre discreto daqui: vento de noroeste offshore certeiro, paredes à altura do peito e uma mão-cheia de convictos em borracha selada. Se o mar ficar flat, o Kamogawa Sea World e um prato de carapau frito são um consolo honesto.
O Enoden entre Fujisawa e Kamakura, com Enoshima à espera atrás
Shonan e a baía de Sagami
A baía de Sagami precisa de uma ondulação de sul a sério ou de um tufão para acordar, e Shonan passa metade do ano a dormitar. Ninguém se importa. Esta é a casa espiritual do surf japonês: os line-ups de cem cabeças de Kugenuma, o Enoden a chocalhar atrás de Shichirigahama, Inamuragasaki à espera o ano inteiro do seu grande dia, e Jogashima na ponta de Miura para as manhãs em que queres ondas e silêncio na mesma sessão. Mantém o Fuji no canto do olho e a madrugada do teu lado.
Kugenuma
Shonan · Pequenos picos urbanos
Iniciante
Em números puros, possivelmente a praia mais surfada da Terra: uma hora desde Shinjuku pela linha Odakyu, a capa passa os torniquetes contigo, e um line-up que passa das cem cabeças numa terça-feira qualquer. A onda anda normalmente entre o joelho e a cintura e parte devagar, e é exatamente esse o ponto: Kugenuma é onde o Japão aprendeu a surfar, onde os miúdos fazem os trabalhos de casa no paredão entre sessões e os sessentões de longboard leem a maré como um horário de autocarro. Enoshima paira no horizonte à tua esquerda; duas vilas para oeste, Chigasaki guarda a mesma fé debaixo da sua própria rocha ao largo, com os Southern All Stars na rádio. Quando um tufão manda ondulação de sul a sério, a cidade inteira mete baixa, e a madrugada é o único compromisso que vale. A etiqueta é rigorosa, e é ela a tecnologia que faz a multidão funcionar: prioridade respeitada, nada de roubar ondas, uma pequena vénia que resolve mais do que qualquer desculpa. Aprende a gostar dela pequena e vais entender Shonan.
Shichirigahama
Shonan · Picos temperamentais com vista para o Fuji
Intermédio
O troço mais fotografado da costa de Shonan: o Enoden a chocalhar ao longo do paredão, os turistas amontoados na passagem de nível que conhecem do Slam Dunk, e nos dias limpos o próprio Fuji sobre a água, para lá de Enoshima. O surf é um pico instável sobre areia escura e laje de rocha, que precisa de uma ondulação de sul a sério para se organizar; os locais tratam-no como a onda temperamental do bairro, não como um destino. Vem na mesma. Uma madrugada de inverno aqui, brisa offshore, neve na montanha e três amigos a dividir os picos, é o melhor argumento que existe a favor de surfar no Japão. O estacionamento ao longo da Route 134 enche antes do nascer do sol em qualquer fim de semana com ondas: faz como os habituais e chega de elétrico.
Inamuragasaki
Shonan · Paredes de dia de tufão
Avançado
O cabo que fecha as praias de Kamakura a oeste é o gigante adormecido de Shonan: atrapalhado ou flat nos dias normais, e a onda mais séria da região no punhado de dias por ano em que um tufão se senta exatamente no pedaço certo de oceano. Então paredes compridas enrolam-se desde a foz e a laje de rocha debaixo do promontório, e o Inamura Classic, a prova que espera anos entre edições por uma ondulação digna, lembra a todos porque é que este lugar é lenda; o filme Inamura Jane, em 1990, já o tinha feito por uma geração inteira. O takeoff desloca-se, o inside é rocha, e a corrente dos dias grandes apresenta-se sozinha, cedo. Os surfistas que esperam por isto o ano inteiro têm prioridade absoluta: vê passar dois sets inteiros antes de sequer pensares em remar. No resto do tempo é um banco de jardim com vista: o Fuji do outro lado da baía ao pôr do sol, o Enoden para casa, nenhuma reclamação.
Jogashima
Miura · Cantos de recife solitários
Intermédio
Passa pelas últimas multidões de Shonan até à ponta da península de Miura: o Japão acaba em Jogashima, uma ilha baixa de barcos de pesca e rocha negra, ligada a Misaki por uma ponte. O seu lado sul recebe ondulação de fundo que o interior da baía nunca vê, e uns quantos cantos de recife dobram-na em paredes surfáveis: varridas pelo vento, caprichosas e felizmente despovoadas. Isto é surf de reconhecimento: verifica três lajes, escolhe a que enrola melhor e aceita que nalguns dias a resposta é nenhuma. As recompensas aqui fora são outras: milhafres a rodar em vez de sinos de elétrico, e as taças de arroz com maguro do porto de Misaki como destino por direito próprio. Leva botas para a rocha cheia de ouriços, e lembra-te de que a costa sul fica limpa quando um vento norte dá cabo de tudo lá em casa.
Ar de inverno: o Fuji sobre a baía de Sagami desde a orla de Kamakura
Quando ir
Chiba & Shonan: um ano de ondas
Condições típicas, mês a mês. O oceano não assinou esta tabela: para ondas, vento e maré em direto, abre a app.
Janeiro
0,5-1 m
16°C · 5/4 + botas + luvas · Todos os níveis
O ano começa dentro de água: a 1 de janeiro os line-ups enchem antes do amanhecer para surfar o hatsu-hinode, o primeiro nascer do sol. O offshore de noroeste penteia a ondulação de vento de Chiba em linhas limpas e a malta reduz-se aos fiéis. A baía de Sagami é muitas vezes um lago: aponta o carro para leste.
Fevereiro
0,5-1 m
14°C · 5/4 + botas + luvas · Intermédio
A água mais fria do ano, à volta de 14°C, e algumas das ondas mais limpas: o anticiclone estaciona sobre o país e o offshore sopra durante semanas. As manhãs de Chiba à altura do peito com três pessoas na água pagam cada milímetro de borracha. Luvas, termos e poucas expectativas para Shonan.
Março
0,5-1 m
15°C · 5/4 + capuz · Todos os níveis
Os ventos de primavera começam a discutir com a costa e a janela é a manhã cedo, antes de o vento sul estragar tudo. O mar atrasa-se um mês em relação ao céu, por isso a borracha continua grossa. A época das formaturas esvazia os line-ups de semana enquanto o país muda de casa.
Abril
0,5-1 m
16°C · 4/3 + botas · Todos os níveis
Ondulação de vento caprichosa e céus atarefados, o preço da primavera nesta costa: escolhe as manhãs pela previsão, não pelo calendário. Pétalas de cerejeira atravessam a Route 134 enquanto a água finge que o inverno não acabou. Os primeiros pulsos de sul chegam a Shonan e os longboards saem de casa.
Maio
0,5-1 m
18°C · 3/2 · Iniciante
A Golden Week põe o país inteiro de férias nos mesmos sete dias: parques cheios às seis, line-ups de festival por todo o lado. Passados os feriados a costa expira, e o fim de maio é um mês de ondas pequenas discretamente encantador. Primeiros calções na areia, ainda um 3/2 na água.
Junho
0,5-1 m
21°C · 3/2 ou shorty · Iniciante
O tsuyu, a época das chuvas, pendura-se cinzento e sem vento sobre a costa: morrinha, ondinhas vidradas entre frentes e a água quente mais vazia do ano. A ondulação de vento de sul cresce enquanto o anticiclone do Pacífico se instala. Leva duas toalhas e aproveita o sossego.
Julho
0,5-1 m
24°C · shorty · Iniciante
Verão a sério: as barracas de praia crescem em Kugenuma, as bandeiras dos nadadores-salvadores dividem a areia, e o surf é quase sempre pequeno e mole, água de longboard. Um tufão madrugador pode mudar de assunto num dia. A madrugada ganha ao calor e aos banhistas ao mesmo tempo.
Agosto
0,5-1,5 m
26°C · calções · Intermédio
A época dos tufões abre para negócio: uma tempestade numerada a mil quilómetros a sul pode transformar uma previsão flat em sets acima da cabeça em trinta e seis horas. A semana de Obon, a meio de agosto, põe o país inteiro na estrada: surfa cedo e conduz tarde. Vigia as trajetórias, não o calendário.
Setembro
1-2 m
25°C · shorty · Avançado
O mês por que a região espera. Os tufões que passam ao largo mandam ondulação de período longo para todas as costas: Tsurigasaki e Hebara cospem tubos, Maruki alinha-se, e se uma tempestade estacionar no sítio certo, Inamuragasaki acorda para o seu dia dos dias. Água ainda quente, malta perfeitamente informada, correntes a levar muito a sério.
Outubro
1-1,5 m
22°C · 3/2 · Intermédio
Os tufões tardios ainda mandam ondulação enquanto os primeiros ventos norte começam a penteá-la: o melhor equilíbrio do ano entre tamanho e forma. A multidão de verão vai rareando com a temperatura do ar. Muitos locais dir-te-ão, baixinho, que outubro é o mês mais fino de ambas as costas.
Novembro
0,5-1 m
20°C · 3/2 · Todos os níveis
O regime de offshore de noroeste instala-se e Chiba torna-se consistente e limpa, enquanto a água guarda um calor que o ar já entregou. Um 3/2 ainda chega. O Fuji reaparece sobre a baía de Sagami no ar que vai secando: o postal de inverno está em obras.
Dezembro
0,5-1 m
18°C · 4/3 + botas · Todos os níveis
Dias curtos, manhãs longas de offshore: a primeira luz chega tarde e o vento aguenta muitas vezes limpo até ao meio-dia. As ondas são pequenas mas imaculadas e as praias ficam em silêncio de dia de semana. A 31, as pranchas já têm parafina fresca para a sessão do primeiro nascer do sol do ano.
Bom saber
Qual é a melhor altura para surfar em Chiba e Shonan?
De agosto a outubro, sem grande discussão: a época dos tufões manda ondulação de período longo que transforma os beach breaks de Chiba em palcos de campeonato e consegue até acordar a sério a baía de Sagami; setembro é o coração dela. O inverno, de dezembro a fevereiro, é a resposta dos entendidos: offshore todas as manhãs, Chiba limpa à altura do peito, água fria, line-ups quase vazios. O verão é quente, pequeno e cheio; a primavera, ventosa e temperamental. Se só puderes escolher uma semana, segue as trajetórias dos tufões em setembro em vez de confiares em calendários.
Consegue-se mesmo surfar perto de Tóquio?
Sim, e com passe de comboio em vez de carro. A linha Odakyu vai de Shinjuku a Kugenuma-kaigan em cerca de uma hora, as pranchas viajam na capa, e o Enoden liga as praias de Kamakura; o expresso Wakashio da JR chega à costa de Chiba em setenta a noventa minutos. Milhares de surfistas de Tóquio fazem o trajeto do dawn patrol antes do escritório, cabelo molhado incluído. O senão é honesto: perto da capital as ondas são pequenas na maioria dos dias, e é exatamente por isso que a cultura à volta delas é tão devota. Para a consistência vais acabar por querer um carro e o túnel Aqua-Line para Chiba, mas a vida de surfista em Tóquio não é um compromisso: é um horário.
Quão cheio fica, na verdade?
Shonan num fim de semana surfável é um dos line-ups mais cheios do mundo: cem pessoas à volta de um pico em Kugenuma é o normal, e uma ondulação de tufão duplica-o. O que mantém tudo a funcionar é a etiqueta, a mais rigorosa e elegante que vais conhecer: prioridade respeitada, nada de roubar ondas, desculpas dadas e aceites a sério. As tuas ferramentas são um dia de semana, um começo de madrugada e a distância: Chiba absorve multidões com quilómetros de sobra, e uma caminhada por Kujukuri ainda te compra um pico privado. Rema para fora em Kugenuma às dez de um domingo de sol e o que acontecer a seguir foi decisão tua.
Que fato preciso no Japão?
Tudo, entre nada e quase tudo. Agosto e o início de setembro são meses de calções, a 25 ou 26°C; de outubro a novembro um 3/2 chega; dezembro pede um 4/3 com botas; e de janeiro a março é território de 5/4 selado, botas e luvas de série, capuz quando o vento de noroeste mostra os dentes, com a água a bater no fundo perto dos 14°C em fevereiro. As lojas locais alugam boa borracha de inverno se vieres fora de época. A recompensa por teres tudo isto é o melhor surf vazio do ano japonês.